R$ 44 bilhões. Esse é o tamanho das divergências que a Receita Federal encontrou nos créditos de PIS e Cofins declarados por cerca de 12 mil empresas brasileiras. O número assusta, mas o contexto é o que importa: trata-se de um pente-fino preparatório para a maior mudança no sistema de impostos do país em décadas.
A Receita não está aplicando multas em massa. Por ora, os contribuintes serão orientados a regularizar as informações por meio da EFD-Contribuições — a escrituração fiscal digital. A lógica é organizar a casa antes da mudança de regime.
Por que isso acontece agora
A resposta é a reforma tributária. A partir de 2027, o PIS e a Cofins — dois tributos federais que incidem sobre o faturamento — serão substituídos pela CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), o novo imposto unificado criado pela reforma. É uma das maiores reorganizações do sistema tributário brasileiro em gerações.
Antes da virada, é preciso acertar os saldos. As empresas acumulam "créditos" de PIS/Cofins — valores que pagaram em etapas anteriores da cadeia e que têm direito de abater. Esses créditos precisam estar corretos para serem aproveitados na transição. Daí o pente-fino: a Receita quer garantir que cada crédito que migrar para o novo sistema seja legítimo.
A dimensão do estoque de créditos
O número de R$ 44 bilhões em divergências ganha proporção quando se olha o todo:
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Empresas com créditos de PIS/Cofins | ~100 mil |
| Estoque total de créditos | ~R$ 140 bilhões |
| Empresas com divergências | ~12 mil |
| Valor das divergências | R$ 44 bilhões |
Ou seja: as divergências representam quase um terço de todo o estoque de créditos — concentradas em 12% das empresas. É um volume expressivo que precisa ser resolvido antes que esses valores possam ser usados sob as novas regras.
Como vai funcionar a transição dos créditos
A Receita já definiu o mecanismo. Os créditos serão aproveitados durante a transição para a CBS por meio do sistema PER/DCOMP Web — a plataforma de compensação e ressarcimento tributário. O sistema vai recuperar automaticamente os saldos declarados na EFD-Contribuições referentes a dezembro de 2026.
Na prática, a empresa que tiver seus créditos em ordem poderá usá-los normalmente no novo sistema. A que tiver divergências precisará regularizar primeiro — ou correr o risco de perder o direito de abater esses valores, o que significaria pagar mais imposto.
Por que isso chega ao consumidor
Parece um assunto distante, só de empresa e contador. Mas tem efeito na ponta. Tributos sobre o faturamento, como PIS/Cofins e a futura CBS, entram no preço de quase tudo que você compra. Quando o sistema funciona mal — com créditos travados, divergências e insegurança jurídica —, esse custo extra é repassado ao consumidor.
A promessa da reforma tributária é simplificar e dar previsibilidade, reduzindo o "custo Brasil" que encarece produtos e serviços. Mas a transição é delicada: se os créditos não migrarem corretamente, empresas podem ter aumento de carga tributária e repassar isso aos preços — exatamente num momento em que a inflação já preocupa e o Banco Central mantém a Selic em 14,75%.
O pente-fino de R$ 44 bilhões é, no fundo, uma operação de bastidor que vai definir quão suave (ou turbulenta) será a maior mudança tributária da geração. Para a maioria dos brasileiros, é invisível. Mas o resultado vai aparecer, lá na frente, no preço da gôndola — para melhor ou para pior, dependendo de como a transição for conduzida.
Leia também: Carro elétrico desvaloriza 49% em 4 anos — mas o jogo está virando. Equatorial vence a privatização da Copasa com R$ 49,03 por ação; Aegea desiste.
