Toda guerra comercial tem um campo de batalha favorito, e na queda de braço entre Brasil e Estados Unidos o etanol virou um deles. O Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) colocou o acesso ao mercado brasileiro de etanol na lista de "práticas irrazoáveis" que justificariam punir o Brasil. Agora, o setor que produz esse etanol resolveu responder — e não foi com meias palavras.
A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) e a Bioenergia Brasil saíram a público para contestar o argumento americano. A defesa tem dois pilares: um técnico e um político. Os dois miram o mesmo alvo — a ideia de que o Brasil estaria fazendo jogo sujo com o etanol dos EUA.
O argumento técnico: a culpa é do Mercosul, não dos EUA
O primeiro contra-ataque é regulatório. Segundo as entidades, a tarifa que o Brasil cobra sobre o etanol importado não foi criada para barrar os americanos — ela segue a Tarifa Externa Comum (TEC), a regra de comércio que o Brasil compartilha com os demais países do Mercosul. Em outras palavras: qualquer país de fora do bloco paga a mesma alíquota, não só os Estados Unidos.
Esse detalhe importa juridicamente. Se a tarifa é geral e segue um compromisso de bloco econômico, fica mais difícil sustentar que o Brasil "discrimina" o produto americano. O setor usa isso para esvaziar a tese central da investigação do USTR — a de que haveria uma barreira feita sob medida contra os EUA.
O argumento político: e o açúcar de vocês?
O segundo golpe é mais direto e mira a hipocrisia. As entidades lembram que os Estados Unidos mantêm, há décadas, um sistema rígido de proteção ao próprio açúcar — com cotas e barreiras que dificultam a entrada do açúcar brasileiro, um dos mais competitivos do mundo, no mercado americano.
A mensagem é clara: quem acusa o Brasil de proteger seu etanol deveria olhar para o próprio quintal. É o tipo de argumento que pesa menos no tecnicismo da OMC e mais na opinião pública e na mesa de negociação — onde "vocês fazem o mesmo" é uma carta poderosa.
A tarifa do Brasil sobre o etanol importado segue a Tarifa Externa Comum do Mercosul e não é direcionada exclusivamente aos EUA, argumentam Unica e Bioenergia Brasil — que ainda lembram do protecionismo americano ao açúcar.
O que está em jogo na investigação
Tudo isso é resposta a uma investigação que o USTR abriu em julho de 2025 e que concluiu que práticas brasileiras seriam "irrazoáveis" e "onerariam ou restringiriam" o comércio americano. O etanol é só um dos itens de uma lista bem maior. Veja as áreas avaliadas:
| Área investigada pelo USTR | Do que se trata |
|---|---|
| Acesso ao mercado de etanol | Tarifa brasileira sobre o etanol importado |
| Pagamentos eletrônicos | O Pix e a concorrência com bandeiras dos EUA |
| Comércio digital | Regras para plataformas e serviços online |
| Propriedade intelectual | Proteção a patentes e marcas |
| Desmatamento ilegal | Alegação de vantagem comercial indevida |
No fim dessa investigação, a ameaça concreta é uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, com prazo de decisão marcado para 15 de julho. Por isso a reação do setor de etanol não é apenas retórica: é parte da disputa que vai definir quanto imposto o produto brasileiro pagará para entrar nos EUA.
Por que isso afeta o seu bolso
Pode parecer briga distante de gente grande, mas respinga. O agro é o motor das exportações brasileiras — quando uma tarifa fecha porta para um produto, sobra oferta no mercado interno, e isso mexe em preço. Além disso, retaliação chama retaliação: se os EUA taxam o Brasil, o Brasil pode taxar de volta, e o consumidor dos dois lados acaba pagando a conta da disputa.
O etanol tem ainda um peso simbólico: é o produto que conecta energia, agro e meio ambiente. Um revés comercial aqui mexe com o crédito do campo e com toda a cadeia da cana, que emprega milhões.
O que esperar a seguir
As próximas semanas serão de pressão até o prazo de 15 de julho. O Brasil tenta resolver a disputa na negociação antes que a tarifa vire realidade, e a resposta do setor de etanol entra como munição para essa mesa. Ao mesmo tempo, o país busca novos parceiros para reduzir a dependência do mercado americano.
No tabuleiro comercial, etanol e açúcar viraram peças da mesma partida — e o Brasil aposta que, mostrando as próprias regras e o protecionismo alheio, consegue desarmar a acusação antes que ela vire tarifa. Acompanhe mais análises de Economia → no KronGazeta.
