A pesquisa divulgada no contexto do Dia Internacional da Higiene Menstrual coloca número em algo que muitas escolas já sabiam, mas empurravam para o improviso. O levantamento ouviu 2.551 estudantes, entre eles 770 que menstruam, além de 303 professores e 181 gestores de escolas públicas e privadas do país. O recado é simples: a menstruação não afeta apenas o banheiro, o armário de absorventes ou uma conversa constrangida no corredor. Ela mexe com presença, desempenho, confiança e permanência.
O dado central é incômodo: 37,1% das estudantes que menstruam perdem aula todos os meses por causa de dor menstrual. Em termos práticos, isso pode significar até dois dias de ausência por mês. Em uma rede escolar que já convive com evasão, defasagem e desigualdade, dois dias mensais não são detalhe. Ao longo do ano letivo, viram conteúdo perdido, prova feita sem preparo, vergonha de pedir ajuda e uma sensação de que o corpo atrapalha a vida escolar.
Cólica não é um rodapé
A cólica aparece como o principal sintoma que impede a ida à escola: 57,7% das respondentes citaram o problema. Outros sintomas também pesam. Fadiga e dores no corpo foram mencionadas por 30,1%; dor de cabeça, por 28%; dor de estômago, por 20,1%; constrangimento e medo de vazamento, por 19,3%; e falta de banheiro adequado ou produtos de higiene, por 8,2%.
Essa lista mostra que o problema não cabe em uma única solução. Distribuir absorvente ajuda, mas não resolve tudo. Ter banheiro limpo e privado ajuda, mas também não basta. Se a aluna sente dor forte e não encontra acolhimento, orientação, possibilidade de justificar falta e encaminhamento de saúde quando necessário, a escola continua tratando uma situação previsível como se fosse exceção.
| Indicador da pesquisa | Resultado |
|---|---|
| Estudantes que menstruam e faltam mensalmente por sintomas | 37,1% |
| Alunas com cólica moderada ou forte | 64% |
| Cólica como sintoma que impede aula | 57,7% |
| Fadiga e dores no corpo | 30,1% |
| Dor de cabeça | 28% |
| Constrangimento ou medo de vazamento | 19,3% |
O prejuízo não é igual para todo mundo
O recorte racial é um dos pontos mais importantes do levantamento. Meninas negras relatam menos cólicas severas do que meninas brancas, mas faltam mais. Segundo a pesquisa, 14,5% das estudantes negras perdem de dois a cinco dias por mês por questões menstruais. Entre estudantes brancas, o percentual é de 9,6%.
A contradição aparente importa. Se a dor declarada é menor, mas a ausência é maior, o problema pode estar na forma como a dor é reconhecida, comunicada e acolhida. O estudo alerta para um viés antigo e perigoso: a ideia de que corpos negros suportam mais dor. Essa noção atravessa a saúde, a escola e a família. No fim, a estudante pode falar menos, pedir ajuda mais tarde e faltar mais porque o sofrimento já foi normalizado antes de virar atendimento.
"Quase 40% das meninas no Brasil faltam pelo menos um dia de aula por mês por causa de dor menstrual", afirma Sofia Reinach, do Instituto Alana.
A fala resume o tamanho do buraco. Não se trata de uma minoria invisível. É uma fatia grande de alunas em idade escolar tendo a frequência afetada por um tema que raramente entra no planejamento pedagógico. Quando entra, costuma aparecer em campanha pontual, palestra única ou caixa de absorventes sem continuidade.
A escola precisa parar de fingir surpresa
O ciclo menstrual é previsível. Isso torna a omissão ainda mais difícil de defender. Escolas sabem que meninas menstruam. Sabem que algumas têm dores fortes. Sabem que o medo de vazamento pode virar humilhação. Sabem que banheiro sujo, sem papel ou sem privacidade cria barreira real. Mesmo assim, muitas redes ainda tratam o tema como conversa lateral, não como parte de saúde escolar.
Um protocolo sério não precisa ser teatral. Precisa registrar faltas ligadas a sintomas menstruais sem expor a estudante, orientar professores, garantir acesso discreto a produtos de higiene, prever acolhimento para dor, envolver famílias e encaminhar casos recorrentes para avaliação de saúde. Também precisa falar com meninos. A pesquisa mostra que 36,8% dos estudantes homens dizem que não pensam muito no tema, quase o dobro do percentual entre meninas. Quando eles ficam fora da conversa, o tabu continua funcionando dentro da sala.
A pauta também não termina nas estudantes. O levantamento mostra que 28,3% das gestoras entrevistadas relataram cólicas severas e 16,9% faltaram ao trabalho por questões menstruais. Entre professoras, 15,8% disseram ter cólicas severas e 12,1% faltaram ao menos uma vez no ano pelo mesmo motivo. A escola perde dos dois lados: alunas fora da aula e profissionais trabalhando com dor ou ausentes.
Pobreza menstrual é só uma parte da história
A falta de absorvente ainda é grave e concreta. Um caso citado pela reportagem mostra uma estudante universitária em Brasília que arrecadou cerca de 1.000 absorventes para doar a uma escola na Vila Planalto. O estoque ajudou meninas por seis meses e foi acompanhado de palestra com profissionais de saúde. A ação é útil, mas também revela o absurdo: uma necessidade básica dependeu de mobilização individual.
A pobreza menstrual não é apenas ausência de produto. É falta de informação antes da primeira menstruação, banheiro inadequado, vergonha, dor sem cuidado e escola sem rotina de acolhimento. Quando a aluna fica em casa, o boletim não mostra que a ausência veio de uma cólica incapacitante. Só mostra falta. Depois, a cobrança cai sobre ela como se o problema fosse disciplina.
O Brasil gosta de dizer que educação é prioridade, mas prioridade aparece em detalhes operacionais. Aparece no banheiro que funciona. No absorvente disponível sem humilhação. No professor que entende o que fazer. Na família que recebe orientação. Na rede de saúde que acolhe uma adolescente com dor intensa sem mandar apenas aguentar. Enquanto isso não vira regra, a dor menstrual seguirá fazendo uma conta baixa, repetida e injusta: algumas alunas perdem aula todo mês por um problema que a escola poderia tratar com menos tabu e mais método.
