O relatório Lavagem de ouro na Amazônia: anatomia de uma fraude, divulgado pelo Greenpeace Brasil no início de junho, descreve um mecanismo que deveria preocupar qualquer pessoa que ainda trate garimpo ilegal como problema isolado de fiscalização em área remota. A denúncia é mais dura: o ouro extraído ilegalmente de Terras Indígenas e Unidades de Conservação pode ser atribuído a uma Permissão de Lavra Garimpeira aparentemente válida, ganhar nota fiscal, declaração de origem e circular pelo sistema financeiro como ativo regular.

A CNN Brasil publicou neste sábado, 6 de junho de 2026, os principais dados do estudo. O levantamento analisou 187 processos minerários e apontou 98 PLGs com indícios de irregularidade. Essas autorizações, segundo a organização ambiental, foram associadas à comercialização declarada de 25,3 toneladas de ouro entre 2018 e março de 2026. Em dinheiro, o volume equivaleria a R$ 18,4 bilhões.

É uma cifra grande demais para ser tratada como falha lateral. Se o relatório estiver correto, a fraude não vive apenas no barranco, na balsa ou na pista clandestina. Ela vive também no documento que diz de onde o ouro veio. E é exatamente aí que o esquema fica mais perigoso, porque transforma destruição ambiental em mercadoria com aparência burocrática de normalidade.

Como a lavagem funciona

A PLG é uma autorização usada para regulamentar a atividade garimpeira. O problema apontado pelo Greenpeace é que ela pode virar uma espécie de comprovante de fachada. O ouro seria extraído de áreas proibidas ou protegidas e depois atribuído a uma área licenciada, mesmo quando essa área não apresenta exploração mineral efetiva ou compatível com a produção declarada.

Na prática, a fraude percorre três etapas. Primeiro, o minério sai de onde não deveria sair: Terra Indígena, Unidade de Conservação ou outra área ilegal. Depois, ele é vinculado a uma PLG que existe no papel e serve como origem formal. Por fim, uma Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários consegue comprar o ativo amparada por documentos que simulam legalidade.

Esse ponto é brutalmente importante. Operações policiais podem destruir maquinário e apreender ouro, mas, se a origem documental continuar fácil de manipular, o incentivo econômico permanece de pé. O crime precisa de extração; precisa também de escoamento. Sem o segundo pedaço, o metal não vira dinheiro limpo.

Dado do relatórioO que foi apontado
Processos analisados187 processos minerários
PLGs suspeitas98 permissões com indícios de irregularidade
Período2018 a março de 2026
Ouro comercializado25,3 toneladas declaradas
Valor estimadoR$ 18,4 bilhões em valores atualizados
Exemplo citadoPLG em Itaituba com 776,68 kg declarados em pouco mais de 1 hectare

O garimpo que existe só no papel

O termo garimpo fantasma não é figura de linguagem. Segundo o estudo, ele se refere a uma PLG sem exploração mineral efetiva ou com atividade incompatível com o volume de ouro declarado. Para detectar esses casos, o Greenpeace cruzou dados históricos da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais, imagens de satélite e sobrevoos de validação.

O critério não é místico. Uma área de garimpo costuma deixar marcas visíveis: piscinas, escavações, rejeitos, alterações de relevo, estruturas operacionais e cicatrizes no solo. Quando a produção declarada é alta e a imagem mostra uma área preservada ou sem sinal compatível de extração, a conta deixa de fechar.

Um exemplo citado pela CNN resume o absurdo. Uma PLG em Itaituba, no Pará, com pouco mais de um hectare, teria registrado a comercialização de 776,68 quilos de ouro entre 2018 e 2020. As imagens de satélite e o sobrevoo, porém, indicaram área preservada, sem sinal de atividade garimpeira. O índice calculado na área foi de 719,15 quilos por hectare, produtividade descrita como extrema.

É esse tipo de dado que derruba a desculpa confortável de que o problema é apenas ausência de agentes em campo. Há também uma falha de desenho institucional: autorizações podem ser concedidas sem pesquisa mineral prévia suficiente para comprovar o potencial produtivo da área. Se ninguém sabe quanto uma área poderia produzir, fica mais fácil declarar produção que veio de outro lugar.

Quem paga a conta

A fraude documental não é uma abstração contábil. Ela ajuda a manter a invasão de áreas protegidas, a destruição de rios e a contaminação por mercúrio. O relatório cita que o avanço do garimpo altera a turbidez da água, degrada leitos de rios e afeta diretamente comunidades indígenas e ribeirinhas que dependem desses territórios para pesca, caça, agricultura e circulação.

A CNN também destacou uma análise do WWF-Brasil citada no relatório: 51,7% dos rios na sub-bacia do Tapajós apresentaram índices de mercúrio acima do limite estabelecido pela legislação brasileira. Mercúrio não é sujeira passageira. É metal tóxico, entra na cadeia alimentar e vira risco de saúde pública, especialmente para crianças e gestantes.

O garimpo ilegal ainda traz uma segunda camada de violência. A presença de estruturas criminosas em áreas de floresta costuma vir acompanhada de doenças, exploração sexual, tráfico de pessoas, ameaça a lideranças locais e pressão econômica sobre comunidades vulneráveis. O metal sai brilhando; o território fica com lama, veneno e medo.

O gargalo está na origem

A resposta mais óbvia seria fiscalizar mais. Ela é necessária, mas insuficiente. O relatório mostra que o gargalo está na rastreabilidade do ouro. Enquanto o Brasil permitir que um ativo de alto valor entre no mercado formal com origem frágil, declaração pouco verificável e checagem posterior limitada, o incentivo para fraude continuará alto.

Isso coloca a Agência Nacional de Mineração, as DTVMs, órgãos ambientais, Receita Federal, Ministério Público e Polícia Federal no mesmo tabuleiro. Não basta olhar para a draga na floresta. É preciso olhar para o papel que transforma aquela lama em ativo financeiro aceito por compradores nacionais e internacionais.

O ponto mais desconfortável é que o mercado global também se beneficia dessa opacidade. Ouro é portátil, valioso e fácil de fundir. Depois que entra na cadeia formal, separar o metal limpo do metal sujo vira tarefa quase impossível. Por isso, a etapa de origem é decisiva. Se ela falha, todo o resto vira teatro de compliance.

O relatório do Greenpeace sustenta que a PLG, criada para regular a atividade garimpeira, passou a ser usada como instrumento para dar aparência legal ao ouro extraído ilegalmente na Amazônia.

O Brasil gosta de anunciar operações contra garimpo ilegal. Algumas são importantes e produzem prejuízo real a grupos criminosos. Mas o estudo expõe uma pergunta mais incômoda: quem controla a porta pela qual o ouro entra no mercado legal? Sem responder isso, a destruição segue financiada. E segue com nota fiscal.