A cena se repete há semanas: a defesa de Vorcaro entrega um documento, os investigadores leem, rejeitam ou pedem mais, e o ciclo recomeça. Desta vez, a proposta chegou com um número diferente — R$ 60 bilhões, ante os R$ 40 bilhões da oferta original, rejeitada em maio. Um aumento de 50%. E mesmo assim, não foi suficiente para sentar à mesa.
A nova versão da delação foi entregue na segunda-feira (1º de junho). Na terça, a defesa enviou um adendo complementar. Na quarta, a reunião prevista com a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República foi cancelada. Não porque o acordo desandou — mas porque os investigadores precisavam de mais tempo para digerir o que receberam. Isso, por si só, já diz algo.
A proposta que cresceu R$ 20 bilhões
A primeira tentativa de Vorcaro chegou em maio com dois problemas centrais: o valor era menor do que o rombo causado e as informações entregues eram consideradas insuficientes pelos investigadores. Segundo pessoas próximas ao processo, a proposta inicial tinha um defeito estrutural — Vorcaro estava evitando comprometer pessoas próximas a ele. Uma delação que protege aliados raramente é aceita.
A Polícia Federal foi direta: o roteiro de colaboração precisaria ser "completamente reformulado". A PGR, comandada por Paulo Gonet, concordou. O procurador-geral manteve as negociações abertas, mas comunicou à defesa que a proposta não atendia aos requisitos básicos para formalização.
A segunda versão chega com R$ 60 bilhões e, aparentemente, com mais informações. O quanto mais — só os investigadores sabem. Por isso o cancelamento da reunião. Precisavam ler.
O rombo que virou operação federal
O Banco Master era, até 2025, uma das maiores instituições financeiras independentes do Brasil. Com ativos estimados em mais de R$ 50 bilhões e cerca de 600 mil clientes, era um dos protagonistas do mercado de crédito privado. A quebra transformou tudo isso em uma das maiores catástrofes do sistema financeiro nacional em décadas.
O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) teve que acionar suas reservas para ressarcir clientes. O valor: R$ 51,8 bilhões — uma das maiores ativações da história do fundo, criado justamente para cobrir situações como essa. O rombo total estimado pelas investigações está em R$ 57 bilhões. Mas a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal vai além: considerando o efeito sistêmico e o dano difuso à cadeia financeira, a estimativa é de R$ 500 bilhões.
É nesse contexto que a Operação Compliance Zero nasceu. O nome é uma declaração de intenções: a hipótese dos investigadores é que os controles internos do banco não apenas falharam — não existiam.
O que a Polícia Federal quer que Vorcaro entregue
Delações premiadas funcionam como uma troca formal: informações relevantes por benefícios processuais. O problema é que "relevante" é definido pelos investigadores, não pelo investigado. E na avaliação da PF, a primeira proposta de Vorcaro entregou pouco.
O que os investigadores querem pode ser resumido em três frentes. A primeira é a mais simples de enunciar e a mais difícil de cumprir: nomes. Quem sabia o que estava acontecendo? Quem autorizou? Quem se beneficiou? Se Vorcaro estava protegendo aliados na primeira versão, essa é exatamente a informação que falta.
A segunda frente é patrimonial. Para garantir os R$ 60 bilhões propostos, Vorcaro precisa indicar onde está o patrimônio — ativos, contas, participações societárias. Uma devolução prometida sem rastreabilidade não é devolução: é promessa.
A terceira é técnica. Como o esquema funcionava? Quais sistemas foram manipulados? Quais documentos existem que a PF ainda não tem? Esse tipo de informação é o que transforma uma delação em ferramenta real de investigação — e não apenas em narrativa.
Julho como prazo — o que muda se não fechar
O procurador-geral Paulo Gonet citou julho como horizonte para encerrar as negociações. Isso coloca o acordo, se houver, a menos de um mês de distância. Para Vorcaro, cada dia sem acordo é mais um na cela comum da PF — uma das formas de pressão mais concretas que existem.
Uma eventual transferência para sala especial faz parte das concessões possíveis dentro da negociação. Isso não é detalhe menor para um preso que já passa dos três meses em cela comum.
Se julho passar sem acordo, a operação segue independentemente. A PF deixou claro que novas fases da Compliance Zero estão previstas com ou sem colaboração. Isso significa que Vorcaro perde poder de barganha à medida que a PF avança com as provas que já possui — inclusive os aparelhos celulares e documentos apreendidos nas fases anteriores, que ainda estão sendo analisados.
O que R$ 60 bilhões significa na prática
Para dimensionar o número: o orçamento anual do Ministério da Educação em 2025 ficou em torno de R$ 55 bilhões. R$ 60 bilhões é mais do que o governo gasta com educação pública federal em um ano inteiro. É também equivalente a aproximadamente 3% do PIB do estado de São Paulo.
O FGC, que ressarciu R$ 51,8 bilhões, usou reservas acumuladas ao longo de décadas para cobrir o colapso de uma única instituição. Mesmo sendo um fundo robusto, a ativação desse volume pode afetar a capacidade do sistema de absorver crises futuras — dependendo de quanto será recuperado.
A devolução proposta por Vorcaro seria feita ao longo de anos. O prazo e o formato ainda estão sendo negociados. E a capacidade efetiva de pagamento — ou seja, se ele realmente tem R$ 60 bilhões para devolver — é, ela própria, parte Central da investigação.
O que esperar nos próximos dias
A análise do adendo entregue na terça-feira deve ser concluída no fim desta semana ou início da próxima. Uma nova reunião entre a defesa, PF e PGR será marcada a partir daí.
As operações investigativas da Compliance Zero seguem em paralelo, independentes das negociações. A PF tem em mãos um volume significativo de material — celulares, documentos, registros financeiros — ainda em fase de análise. Cada fase que avança sem acordo é uma fase que reduz o valor da delação para Vorcaro.
O banqueiro está preso. O prazo de julho se aproxima. E R$ 60 bilhões continuam na mesa — esperando para saber se alguém vai aceitá-los como suficientes para contar tudo que os investigadores querem ouvir.
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