Há uma frase que circula entre investigadores de crime organizado: "você não combate uma facção prendendo o vapor da esquina". O vapor — o vendedor de drogas do varejo — é descartável. Preso um, outro assume no dia seguinte. O que sustenta a facção não é a mão de obra. É o dinheiro.

Foi essa lógica que reorientou a estratégia do Estado brasileiro. Em vez de medir sucesso pelo número de prisões, as autoridades passaram a medir pelo volume de capital travado. É a chamada descapitalização — sufocar a facção cortando seu fluxo financeiro, congelando bens e desmontando os esquemas de lavagem que transformam dinheiro de droga em patrimônio aparentemente legal.

Como funcionam as Forças Integradas (FICCO)

A peça central dessa estratégia são as FICCOs — Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado. Sob coordenação da Polícia Federal, elas reúnem num só esforço a Polícia Civil, a Polícia Militar, os agentes penais, as guardas municipais, a Polícia Rodoviária Federal e as secretarias estaduais de segurança.

A vantagem da integração é prática. O crime organizado não respeita fronteiras estaduais — uma facção opera em São Paulo, lava dinheiro no Maranhão e compra armas no Paraguai. Quando cada polícia trabalha isolada, perde o rastro na divisa. A FICCO costura a investigação de ponta a ponta, seguindo o dinheiro em vez de parar na fronteira da jurisdição.

Os números da virada

A escala da operação impressiona. Ao longo de 2025, as FICCOs executaram 246 operações, que resultaram em mais de 2 mil mandados de busca e apreensão e mais de 1.500 mandados de prisão. Mas o dado mais revelador não é o de prisões — é o de bloqueio financeiro.

Em operações recentes, os valores travados dão a dimensão do dinheiro que circula nas facções:

  • São Luís (MA): R$ 297 milhões em bloqueio financeiro, além de veículos de luxo e maquinário pesado
  • Campinas (SP): mais de R$ 70 milhões em contas bancárias bloqueadas
  • Bahia: cerca de R$ 103 milhões congelados em esquema de fraude eletrônica e lavagem
  • Recife (PE): até R$ 5 milhões em bens bloqueados

Veículos de luxo, maquinário, fazendas, postos de combustível, redes de lojas — o patrimônio das facções é diversificado justamente para esconder a origem ilícita. Cada bem bloqueado é um pedaço da estrutura financeira que desmorona.

A conexão com a classificação de "terroristas"

Essa estratégia ganha uma camada nova com a recente decisão americana. Os EUA classificaram PCC e CV como organizações terroristas — medida que, segundo especialistas, fortalece exatamente os mecanismos de rastreamento financeiro internacional.

A lógica é a mesma da descapitalização brasileira, só que em escala global. Uma organização classificada como terrorista pelos EUA enfrenta sanções financeiras que dificultam mover dinheiro por bancos internacionais. Se a estratégia interna do Brasil é sufocar o caixa das facções dentro do país, a classificação americana mira o caixa delas no exterior. As duas se complementam — ainda que o governo brasileiro tenha ressalvas sobre a soberania na decisão dos EUA.

Por que descapitalizar é mais difícil — e mais eficaz

Prender pessoas é visível, gera manchete e dá sensação de resposta imediata. Bloquear dinheiro é invisível, lento e técnico. Exige perícia contábil, cooperação entre órgãos, quebra de sigilo bancário e investigação que pode durar anos. Não rende foto de apreensão dramática.

Mas é mais eficaz no longo prazo. Uma facção sem caixa não compra armas, não paga advogados, não corrompe agentes públicos, não sustenta as famílias dos presos — um dos principais mecanismos de fidelização. O dinheiro é o oxigênio da organização criminosa. Cortá-lo é asfixiar a estrutura inteira, não apenas remover uma peça substituível.

Os limites da estratégia

A descapitalização não é bala de prata. As facções se adaptam rápido: migram para criptomoedas, usam laranjas, fragmentam o patrimônio em nomes de terceiros, investem em negócios legais que misturam dinheiro limpo e sujo. Cada avanço investigativo é seguido por uma nova técnica de ocultação.

Há também o problema da capacidade. Investigação financeira sofisticada exige peritos, tecnologia e tempo — recursos escassos diante da escala do problema. As 246 operações de 2025 são significativas, mas representam uma fração do que seria necessário para realmente quebrar a espinha financeira de organizações que movimentam bilhões por ano.

Ainda assim, a mudança de foco é a aposta mais promissora em décadas. O Brasil passou anos enchendo presídios sem reduzir o poder das facções — pelo contrário, as cadeias viraram sede administrativa do crime. Mirar o dinheiro é admitir que a guerra não se vence no varejo das esquinas, mas no atacado das contas bancárias. Se a estratégia vai funcionar, só os próximos anos dirão. Mas, pela primeira vez em muito tempo, o Estado parece estar atacando o lugar certo.

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