PCC e Comando Vermelho são organizações terroristas. Essa é a nova classificação oficial do governo americano, publicada em 28 de maio de 2026. Para Washington, as duas maiores facções criminosas do Brasil — presentes em mais de 40 países — atendem aos critérios legais da lei antiterrorismo americana.
O timing tem nome e data. No dia 22 de maio, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reuniu com o presidente Donald Trump na Casa Branca. O tema central da agenda: a possibilidade de os EUA designarem o PCC e o CV como organizações terroristas. Seis dias depois, o Departamento de Estado publicou a decisão. Coincidência política ou coordenação deliberada — depende de quem você pergunta em Brasília.
O que a pesquisa mostra sobre a opinião pública
O PoderData ouviu 2.500 brasileiros em 166 municípios de todos os 27 estados entre 30 de maio e 1º de junho. Pergunta direta: a decisão americana de classificar PCC e CV como terroristas é boa ou ruim para o Brasil?
- 53%: boa para o Brasil
- 33%: ruim para o Brasil
- 14%: não sabe / não respondeu
Margem de erro de 2 pontos percentuais. A aprovação é majoritária mas não esmagadora — e os 33% que discordam não são poucos. O dado é relevante para o governo, que tenta equilibrar a relação com Washington enquanto defende o argumento da soberania.
O que muda na prática com a classificação de "terroristas"
A designação americana não transforma automaticamente o PCC ou o CV em organizações terroristas sob a lei brasileira. No Brasil, eles continuam classificados como organizações criminosas — uma distinção jurídica importante. Mas os efeitos práticos do lado americano são concretos e potencialmente severos.
O risco mais imediato está no sistema financeiro. O promotor Lincoln Gakiya, especialista em crime organizado, foi direto: todos os bancos que "comercializaram" ativos relacionados ao PCC ou ao CV — movimentaram recursos, processaram transações, mantiveram contas — podem estar expostos a sanções americanas. "Isso pode afetar todo o sistema financeiro nacional", disse Gakiya em entrevista à CNN Brasil.
O segundo impacto é operacional, na cooperação de inteligência. Hoje, as forças de segurança brasileiras cooperam diretamente com FBI e DEA no combate ao narcotráfico. Com a reclassificação como terrorismo, a responsabilidade americana migra para CIA e militares — instâncias que trabalham com informação mais sigilosa e compartilham menos com policiais estrangeiros. A cooperação pode diminuir, não aumentar.
A divisão dos especialistas
O debate jurídico é genuíno. Há argumentos sérios dos dois lados.
A favor: PCC e CV têm escala transnacional, capacidade de desestabilizar instituições, controle territorial em múltiplas cidades e países, e uma sofisticação financeira que vai muito além do crime comum. Precedentes em México (com cartéis), Itália (Camorra) e Colômbia (FARC) mostram que a classificação pode fortalecer mecanismos de rastreamento financeiro.
Contra: A distinção clássica entre terrorismo e crime organizado é motivacional. O terrorismo busca objetivos políticos ou ideológicos por meio do terror. O PCC e o CV buscam lucro — por meio de drogas, armas e extorsão. "O terror é instrumentalizado para intimidar rivais e proteger negócios ilícitos", disse Helena Folgueira, especialista jurídica da USP, "não para mudar o regime político."
A classificação americana ignora essa distinção. Para Washington, o impacto desestabilizador já é suficiente para justificar o label — independentemente da motivação.
Por que o governo Lula se opõe
A posição oficial do governo federal é clara: a classificação afeta a soberania nacional e gera riscos jurídicos. Mas há também um cálculo político.
Flávio Bolsonaro negociou diretamente com Trump algo que o governo Lula não pediu e não quer. Se o resultado dessa negociação se torna popular — 53% de aprovação segundo o PoderData — o governo fica em posição desconfortável: discordar de uma medida que mais da metade dos brasileiros apoia. O argumento da soberania é juridicamente sólido, mas politicamente custoso num país que sofre com violência urbana há décadas.
O governo optou por uma crítica técnica: não contra o objetivo de combater o crime, mas contra o método e as consequências. Uma estratégia que evita confronto direto com a opinião pública mas sinaliza para o campo progressista que o governo não abraça a agenda Bolsonaro-Trump.
O que vem pela frente
O Congresso brasileiro deve discutir uma lei antiterrorismo atualizada ainda em 2026 — a pressão americana é um dos fatores que acelerou essa pauta. A questão é se o texto vai adotar a mesma definição ampla dos americanos ou manter a distinção entre terrorismo político e crime organizado econômico.
Para os 53% que aprovam a decisão americana, o raciocínio é simples: se a classificação ajuda a travar dinheiro do PCC e do CV em bancos internacionais, é bem-vinda, independente do nome técnico. Para os 33% que discordam, o risco é abrir uma porta que, uma vez aberta, é difícil de fechar — com consequências para o sistema financeiro e para a relação com o governo americano que vão muito além das facções.
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