A edição inédita do Conversa com o Autor exibida pela Rádio MEC no domingo, 7 de junho, teve como centro uma entrevista com Thiago Thiago de Mello. Ele é poeta, educador e compositor, nasceu no Rio de Janeiro, foi criado na Amazônia e carrega um nome que já vem com peso literário: é filho de Thiago de Mello, um dos autores brasileiros mais associados à poesia social, à defesa da liberdade e à paisagem amazônica.
A pauta veio da Agência Brasil e é simples no enunciado: uma entrevista de rádio homenageia o poeta amazonense no ano em que ele completaria 100 anos. Mas o conteúdo é mais denso do que o aviso de programação sugere. A conversa passa pelo primeiro livro de poesias de Thiago Thiago de Mello, Uma varanda no meio do rio, por lembranças de família, por documentos pessoais preservados e por um novo álbum musical, Nada vai sumir.
O ponto mais interessante é que a homenagem não tenta congelar Thiago de Mello como busto. O programa parte do filho, de sua própria produção e de sua relação com a Amazônia. Isso muda o tom. Em vez de uma retrospectiva escolar, aparece uma discussão sobre transmissão: como uma obra atravessa gerações, como uma casa de memória vira livro, como uma paisagem vira linguagem e como um nome público também é uma herança íntima.
O que foi ao ar
Segundo a Agência Brasil, a jornalista Katy Navarro entrevistou Thiago Thiago de Mello em uma edição de quase 30 minutos do Conversa com o Autor. O programa foi ao ar às 12h30, na Rádio MEC, e integra uma atração dedicada a lançamentos, processos criativos, sugestões de leitura e narrativas de autores brasileiros.
Na entrevista, o convidado falou sobre a criação de Uma varanda no meio do rio, livro que nasceu durante a pandemia e reúne textos, poemas, letras de músicas, cartas, e-mails, bilhetes e fotografias de antepassados. Esse detalhe importa porque o projeto não se limita à poesia publicada em estado final. Ele trabalha com vestígios: aquilo que geralmente fica em caixas, álbuns, gavetas e arquivos pessoais.
Também entrou na conversa o centenário de Thiago de Mello, nascido em 1926 e morto em 2022. A matéria original lembra obras centrais do poeta, como Faz escuro mas eu canto, Os Estatutos do Homem e Silêncio e Palavra. São títulos que explicam por que sua imagem pública ficou presa a duas ideias fortes: a poesia como gesto político e a Amazônia como chão de pensamento, não como cenário turístico.
Por que Thiago de Mello volta agora
Centenários costumam render homenagens protocolares. O risco é transformar o autor em calendário: nasce, publica, sofre, morre, recebe selo comemorativo. A edição da Rádio MEC aponta para outro caminho porque amarra o aniversário à produção viva de seu filho. A memória aparece como trabalho em andamento, não como placa de inauguração.
Thiago de Mello foi jornalista e diplomata, passou pela prisão durante a ditadura e viveu exilado no Chile. Lá conheceu nomes como Pablo Neruda e Paulo Freire. Esse percurso ajuda a entender por que sua poesia ganhou leitura política tão forte. Ele não escreveu sobre liberdade em abstrato, como palavra bonita para cartaz. Escreveu a partir de um país que vigiava, prendia e empurrava artistas e intelectuais para fora.
O programa também toca em uma camada menos ruidosa da biografia: a ligação com Barreirinha, no interior do Amazonas, e com o Rio Andirá. Thiago Thiago de Mello nasceu no Rio, mas cresceu na Amazônia, no território simbólico e físico que atravessou a obra do pai. Quando ele fala de memória familiar, portanto, fala também de geografia. A varanda do livro não é só uma imagem doméstica. Ela sugere uma posição: olhar o rio, escutar o que passou, organizar o que ainda pode ser dito.
Livro, cartas e fotos: a memória sem verniz
O material citado na matéria da Agência Brasil mostra uma escolha editorial clara. Ao reunir poemas, letras de músicas, cartas, e-mails, bilhetes e fotografias, Uma varanda no meio do rio recusa a versão limpa demais da memória. Famílias e países não se lembram apenas por livros acabados. Lembram por fragmentos, por documentos imperfeitos, por mensagens escritas em urgência, por imagens que não explicam tudo.
A pandemia aparece como contexto de criação. Não é um detalhe decorativo. Entre 2020 e 2022, muita gente reorganizou documentos, perdas e vínculos dentro de casa. No caso de uma família atravessada por um poeta nacionalmente conhecido, esse gesto privado ganha outra escala. O que se guarda em uma casa pode se tornar parte da conversa pública sobre literatura brasileira.
A música também entra na história
Além do livro, Thiago Thiago de Mello está lançando o sexto álbum musical, Nada vai sumir. A Agência Brasil informa que o disco trata da Amazônia, do poder da memória e da impermanência. A combinação conversa diretamente com o livro: guardar não significa impedir o desaparecimento; significa dar forma ao que muda.
O fato de o convidado circular entre poesia, educação e música ajuda a tirar a homenagem da gaveta acadêmica. Thiago de Mello pertence à literatura, mas também ao repertório político, escolar, musical e afetivo de muita gente. Quando o filho lança um disco e um livro no mesmo momento, ele mostra que a herança não precisa ser apenas comentário sobre o passado. Pode ser produção nova.
O papel da Rádio MEC
A Rádio MEC é apresentada pela EBC como uma emissora voltada à música de concerto, com 80% de sua programação dedicada à música clássica, mas com espaço para jazz, música popular brasileira e produções culturais. Esse dado ajuda a entender a função do Conversa com o Autor. O programa não tenta competir com o ruído das plataformas em velocidade. Ele trabalha com um formato antigo e ainda útil: meia hora de conversa com alguém que fez uma obra.
No caso de Thiago de Mello, esse formato faz sentido. Poesia precisa de voz. Memória precisa de tempo. Uma entrevista curta demais viraria chamada promocional. Uma homenagem oficial demais viraria cerimônia. O programa de rádio fica no meio: dá contexto, permite pausa, deixa o autor explicar de onde veio a obra e por que ela ainda quer circular.
Serviço e contexto
| Item | Informação confirmada |
|---|---|
| Programa | Conversa com o Autor, da Rádio MEC |
| Apresentação | Katy Navarro |
| Convidado | Thiago Thiago de Mello |
| Tema | Centenário de Thiago de Mello e lançamento de Uma varanda no meio do rio |
| Exibição | Domingo, 7 de junho, às 12h30 |
| Obra musical citada | Álbum Nada vai sumir |
O essencial da pauta é menos a efeméride e mais a pergunta que ela deixa: o que um país faz com seus poetas quando a data redonda passa?
A resposta honesta é que o Brasil costuma lembrar mal. Lembra em ondas, quando há aniversário, morte, prêmio ou polêmica. Depois esquece de novo. Por isso, programas como o Conversa com o Autor têm valor acima do tamanho aparente. Eles mantêm autores em circulação fora do algoritmo de escândalo e fora da lógica de lançamento relâmpago.
Thiago de Mello não precisa de canonização apressada. Sua obra já tem lugar. O que precisa é ser relida sem preguiça: como poesia, como documento político, como imaginação amazônica e como parte de uma rede latino-americana que inclui exílio, amizade intelectual e resistência. A entrevista com Thiago Thiago de Mello ajuda porque recoloca essa obra em movimento, ao lado de um livro novo, um disco novo e uma pergunta antiga: como cantar quando faz escuro.
