US$ 97,36. É quanto custa o barril de petróleo Brent agora — alta de 6,8% em um único pregão. O gatilho foi a agência estatal iraniana Tasnim confirmando que Teerã suspendeu as comunicações indiretas com os Estados Unidos por mediadores. As negociações nucleares que pareciam próximas de um acordo voltaram ao ponto zero.

O conflito se estende muito além do esperado. Quando as negociações começaram no início de 2026, analistas projetavam fechamento em 60 a 90 dias. Passaram mais de 120 dias e o risco de escalada agora inclui discussões internas no governo iraniano sobre bloquear o Estreito de Ormuz — por onde passa 40% do petróleo marítimo mundial.

O que é o Estreito de Ormuz e por que o mundo presta atenção

O Estreito de Ormuz tem apenas 33 quilômetros em seu ponto mais estreito, entre o Irã e o Omã. Por ali passam diariamente cerca de 21 milhões de barris de petróleo — o equivalente a 21% da demanda global. Arábia Saudita, Emirados Árabes, Kuwait e Iraque dependem desse corredor para exportar.

O Irã ameaçou fechar o Estreito em múltiplos momentos históricos — em 2012, durante sanções do Ocidente, e em 2019, após ataques a navios-tanque no Golfo. Em nenhuma dessas vezes o bloqueio se concretizou, em parte porque implicaria colidir diretamente com a Marinha americana baseada no Bahrein. Mas a ameaça, por si só, move mercados.

O impacto imediato: Petrobras sobe, mas combustível pode subir

Quando o petróleo sobe, a Petrobras sobe na bolsa — esse é o mecanismo automático. As ações ON avançaram 3,08% e as PN subiram 2,17% nesta segunda-feira. Para acionistas, boa notícia. Para quem abastece o carro, a conta pode vir depois.

Desde 2023, a Petrobras opera com a Política de Preços de Combustíveis, que se baseia no preço de paridade de importação. Quando o petróleo internacional sobe, o combustível doméstico tende a seguir — mas com defasagem de semanas a meses, dependendo da política de cada gestão. Na prática: o preço na bomba hoje ainda não reflete o petróleo a US$ 97.

O diesel ainda conta com um subsidio econômico de R$ 1,12 por litro aprovado pela Petrobras em maio, justamente para compensar pressões vindas do Oriente Médio. Esse subsidio cobre parte do custo de repasse — mas se o Brent ficar acima de US$ 90 por mais de 30 dias, a equação muda e o reajuste se torna necessário.

A inflação que já está em cima da meta

A bomba inflacionária não precisa do combustível para já estar armada. O IPCA projetado para 2026 subiu pela 12ª semana consecutiva para 5,09% — acima do teto da meta de 4,5%. O Banco Central mantém a Selic em 14,75% exatamente para conter esse avanço.

Petróleo a US$ 97 soma pressão sobre frete, insumos agrícolas e energia elétrica — todos com peso direto no IPCA. Se os preços ficarem nesse patamar ou subirem mais, a expectativa de inflação para 2027 começa a se deteriorar, o que complica o ciclo de queda dos juros que o mercado esperava para o segundo semestre.

O que pode acontecer nas próximas semanas

Três cenários:

  • Negociação retomada: EUA e Irã voltam à mesa via Qatar ou Omã (os mediadores habituais). Petróleo recua abaixo de US$ 90. Impacto no Brasil: limitado.
  • Estagnação: O conflito permanece como está — sem escalada, sem acordo. Petróleo oscila entre US$ 85 e US$ 95. Impacto no Brasil: pressão inflacionária moderada, reajuste no combustível provável no segundo semestre.
  • Escalada: Irã toma alguma ação concreta no Estreito de Ormuz ou ocorre confronto direto com forças americanas. Petróleo acima de US$ 100, possivelmente US$ 110-120. Impacto no Brasil: reajuste de combustíveis inevitável, inflação acima de 6%, BC sem espaço para cortar juros em 2026.

O mercado estava precificando o cenário 1 até ontem. Com a ruptura das comunicações, migrou para o cenário 2. Ninguém quer pensar no cenário 3 — mas quem já passou por 2022 sabe que o mercado de petróleo pode ir de US$ 80 a US$ 130 em questão de semanas quando a geopolítica se impõe.

Por que o Ibovespa caiu se a Petrobras subiu

Boa pergunta. A Petrobras tem peso de quase 12% no Ibovespa — quando ela sobe 3%, contribui para puxar o índice para cima. Mas a queda de 0,91% no índice mostra que o resto da bolsa caiu mais do que a Petrobras subiu. Setores que sofrem com juros altos e inflação — construção, varejo, consumo — foram derrubados pela combinação de petróleo caro, IPCA resistente e a já mencionada pressão das tarifas americanas de 25% sobre o Brasil.

O Ibovespa acumulou queda de 7,22% em maio — o pior desempenho mensal do ano. A pergunta que os gestores estão fazendo é se junho vai ser melhor ou se a combinação de fatores externos está criando um ciclo de deterioração. Por ora, o petróleo a quase US$ 100 não ajuda a responder.