As regras para levar power banks em aviões entraram em uma fase mais dura. A Associated Press publicou nesta semana um guia sobre as restrições mais recentes para carregadores portáteis de íons de lítio, em meio a novas orientações de autoridades de aviação e políticas mais rígidas de companhias aéreas. A razão não é burocracia por prazer. Baterias de lítio podem superaquecer, soltar fumaça e pegar fogo. Em uma cabine pressurizada, com centenas de pessoas e pouco espaço para reação, isso vira um risco operacional real.

A regra que o passageiro precisa decorar é direta: power bank não deve ir na bagagem despachada. Ele precisa estar na bagagem de mão. A Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos, a FAA, mantém essa orientação em seu material PackSafe sobre baterias de lítio. A lógica é simples. Se uma bateria falha dentro da cabine, a tripulação consegue ver, isolar e agir. Se falha no porão, o problema fica escondido até se transformar em emergência.

O que mudou na prática

O aperto ficou mais visível porque 2026 trouxe um movimento internacional de padronização. A Organização da Aviação Civil Internacional, ligada à ONU, anunciou especificações novas para power banks com entrada em vigor em 27 de março de 2026. A Agência Brasil não está no centro dessa pauta, mas o tema atinge diretamente brasileiros que viajam para os Estados Unidos, Europa, Ásia ou mesmo em trechos operados por companhias estrangeiras. A regra pode variar por empresa, mas a tendência é a mesma: menos tolerância com bateria solta, carregador escondido e dispositivo grande demais.

Segundo a AP, viajantes geralmente podem levar dois power banks de íons de lítio com capacidade de até 100 watt-hora sem aprovação prévia da companhia aérea. Acima disso, a conversa muda. A FAA informa que baterias maiores, entre 101 e 160 watt-hora, podem ser aceitas em quantidade limitada, mas dependem de aprovação da empresa aérea. Acima de 160 watt-hora, o passageiro entra em território de equipamento proibido para uso comum em voo.

ItemRegra geral informada pelas autoridades
Power bank na mala despachadaNão deve ser levado no porão
Power bank na bagagem de mãoÉ o caminho correto para baterias sobressalentes
Até 100 WhNormalmente permitido sem aprovação da companhia
101 a 160 WhPode exigir aprovação prévia e limite de quantidade
Acima de 160 WhEm regra, não é aceito para passageiro comum

O detalhe que confunde: mAh não basta

O passageiro comum compra power bank olhando para miliampere-hora, o famoso mAh. Só que a aviação trabalha com watt-hora, ou Wh. É esse número que importa no limite de segurança. Alguns fabricantes imprimem os dois dados na carcaça. Outros deixam o consumidor fazendo conta, o que é péssimo para quem já está atrasado no aeroporto. A fórmula básica é multiplicar a tensão nominal em volts pela capacidade em ampere-hora. Um power bank de 20.000 mAh a 3,7 V, por exemplo, fica perto de 74 Wh. Já um modelo enorme, voltado para notebook ou uso pesado, pode passar de 100 Wh.

Essa distinção parece técnica, mas decide se o carregador entra no avião. Um power bank pequeno para celular normalmente fica abaixo do limite. Um bloco grande capaz de alimentar laptop por horas precisa ser checado com mais cuidado. O pior cenário é chegar ao embarque com um equipamento sem marcação clara. A empresa aérea pode barrar o item simplesmente porque não consegue confirmar a capacidade. E, nesse caso, discutir no portão raramente ajuda.

Por que as companhias endureceram

O risco de bateria de lítio não é teórico. A AP citou o caso recente de um voo da EasyJet que saiu do Egito para o Reino Unido e desviou para Roma depois que um passageiro informou à tripulação que havia um power bank na bagagem despachada carregando um dispositivo. Não é preciso haver uma tragédia para a operação ser interrompida. A suspeita já basta, porque a tripulação não pode tratar fogo de lítio como um incômodo menor.

Companhias também passaram a restringir uso e armazenamento durante o voo. A Southwest, nos Estados Unidos, anunciou em abril que limitaria passageiros a um carregador portátil em seus aviões e exigiria que o item ficasse visível quando em uso. O motivo declarado foi permitir intervenção rápida se a bateria começasse a superaquecer. Outras empresas adotam modelos parecidos: permitir levar, mas proibir carregar o próprio power bank durante o voo; permitir uso, mas impedir que fique no compartimento superior; ou exigir isolamento dos terminais para evitar curto-circuito.

O power bank deixou de ser só comodidade: dentro do avião, virou item de risco monitorado.

O que o passageiro deve fazer antes de viajar

O primeiro passo é olhar a carcaça do power bank. Se ela mostra Wh abaixo de 100, a situação costuma ser tranquila, desde que o item vá na bagagem de mão. Se mostra mAh, procure também a tensão nominal. Se não há marcação legível, considere não levar. Aeroporto não é lugar bom para defender produto sem identificação. O segundo passo é verificar a regra da companhia aérea, principalmente em viagens internacionais ou com conexão. A FAA alerta que regras de empresas, da TSA e de autoridades internacionais podem ser mais restritivas do que a regra geral americana.

Também vale evitar comportamento que chama problema. Não deixe power bank carregando outro aparelho dentro da mala. Não coloque bateria solta no fundo da mochila junto com chave, moeda e objeto metálico. Não use equipamento estufado, quente, rachado ou de procedência duvidosa. Se a bateria aquece demais em casa, ela não fica magicamente segura dentro de um avião. E se a tripulação pedir para manter o item visível, a resposta inteligente é obedecer.

O impacto para quem depende de tecnologia

A mudança pesa mais para quem viaja trabalhando. Celular, notebook, tablet, fone, câmera e roteador portátil disputam energia durante conexões longas. Power banks grandes viraram parte do kit de jornalistas, consultores, criadores de conteúdo e equipes técnicas. O problema é que a aviação não enxerga conveniência acima de segurança. O passageiro pode precisar trocar um carregador gigante por dois menores dentro do limite, escolher assentos com tomada ou planejar recargas no aeroporto.

Há também um efeito sobre fabricantes. Produtos sem indicação clara de Wh tendem a virar dor de cabeça. Em um mercado cada vez mais regulado, rotulagem transparente deixa de ser gentileza e vira requisito prático. Quem vende power bank para viajante precisa dizer de forma visível se o item cabe nas regras de voo. Sem isso, o consumidor paga pelo produto e depois descobre que comprou um problema com cabo USB.

O básico, sem fantasia

Ninguém precisa entrar em pânico nem abandonar carregadores portáteis. A maioria dos power banks comuns para celular continua aceitável quando vai na bagagem de mão e respeita a capacidade. O que acabou foi a fase relaxada em que qualquer bateria era jogada em qualquer mala. Em 2026, a cabine virou o lugar correto para esses dispositivos porque é ali que a tripulação consegue controlar uma falha. O porão não é lugar para bateria sobressalente de lítio.

A recomendação final é pouco glamourosa, mas evita dor de cabeça: confira a capacidade em Wh, leve na bagagem de mão, proteja os contatos, consulte a companhia e não use bateria danificada. Se o power bank é maior do que 100 Wh, peça aprovação antes. Se passa de 160 Wh, deixe em casa. A diferença entre viajar tranquilo e perder um acessório caro pode estar em um número pequeno impresso na lateral do aparelho.