O governo federal informou que a distribuição de medicamentos para tratamento da dependência de nicotina no Sistema Único de Saúde saltou de 19,5 milhões de unidades em 2022 para 46,6 milhões em 2025. A variação, de 138,51%, foi divulgada pelo Ministério da Saúde em balanço publicado em 4 de junho, poucos dias depois do Dia Mundial Sem Tabaco, celebrado em 31 de maio.
A notícia é simples, mas o recado é maior do que uma planilha. Parar de fumar costuma ser vendido como uma decisão individual, quase moral. Na prática, nicotina causa dependência, recaída é comum e o tratamento funciona melhor quando mistura orientação, acompanhamento e medicamentos. É exatamente aí que o SUS entra: não para prometer milagre, mas para reduzir a barreira de acesso.
A oferta faz parte do Programa Nacional de Controle do Tabagismo. A coordenação da disponibilização dos medicamentos é da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde do Ministério da Saúde. Segundo a pasta, a assistência farmacêutica hoje inclui cinco itens: cloridrato de bupropiona de 150 mg, goma de mascar de nicotina de 2 mg e adesivos transdérmicos de nicotina nas dosagens de 7 mg, 14 mg e 21 mg.
O que o SUS distribuiu
Os números mostram avanço em todos os itens listados pelo ministério. A bupropiona, usada em tratamento da dependência de nicotina sob orientação profissional, saiu de 8,68 milhões de unidades em 2022 para 18,63 milhões em 2025. Os adesivos de 7 mg passaram de 3,14 milhões para 6,33 milhões. Os de 14 mg foram de 3,14 milhões para 8,14 milhões. Os de 21 mg subiram de 3,58 milhões para 8,9 milhões. A goma de nicotina saiu de 1,01 milhão para 4,64 milhões.
| Item distribuído | 2022 | 2025 |
|---|---|---|
| Bupropiona 150 mg | 8.682.800 | 18.628.500 |
| Adesivo de nicotina 7 mg | 3.136.805 | 6.326.558 |
| Adesivo de nicotina 14 mg | 3.141.159 | 8.135.477 |
| Adesivo de nicotina 21 mg | 3.581.018 | 8.897.007 |
| Goma de nicotina 2 mg | 1.008.240 | 4.641.540 |
O dado mais forte não é só o total. É a composição. A presença de adesivos em três dosagens permite ajuste gradual da reposição de nicotina. A goma dá alternativa para momentos de fissura. A bupropiona entra em outra frente, com uso que exige avaliação de saúde. O pacote indica uma abordagem mais séria do que a velha frase “é só largar”.
O ponto que muita gente ignora
Quem fuma não precisa apenas de sermão. Precisa de acesso. Precisa de unidade de saúde abastecida, profissional treinado, orientação sobre efeitos adversos, acompanhamento e uma estratégia realista para atravessar abstinência. Quando o remédio falta, a política vira cartaz na parede. Quando o remédio chega, ainda não resolve tudo, mas melhora muito o jogo.
Fernanda De Negri, secretária da SCTIE, afirmou que o aumento evidencia a busca da população por apoio especializado para abandonar o cigarro. Ela também disse que o crescimento reforça a importância de políticas públicas de prevenção e tratamento. É uma leitura razoável. Se mais itens foram enviados, há mais gente no radar do sistema. O desafio é transformar envio em tratamento concluído, porque caixa despachada não é a mesma coisa que paciente acompanhado.
“Garantir que o tratamento farmacológico chegue a quem precisa, de forma contínua, segura e orientada, é um pilar inegociável para o sucesso dessa política de saúde”, afirmou Fernanda De Negri, segundo o Ministério da Saúde.
Essa frase acerta no essencial: continuidade. Tratamento para dependência sofre quando a pessoa pega um mês de adesivo, volta no outro e não encontra nada. Sofre quando a unidade não sabe orientar. Sofre quando o paciente recebe o produto sem conversa franca sobre recaída, ansiedade, ganho de peso, gatilhos e rotina. O aumento de 138,51% é boa notícia, mas não autoriza comemoração vazia. Ele aumenta também a cobrança sobre logística e qualidade do atendimento.
Por que isso importa para a saúde pública
Tabagismo não é um problema pequeno nem isolado. Ele pesa sobre câncer, doenças cardiovasculares, doenças respiratórias e internações que poderiam ser evitadas. Cada pessoa que consegue abandonar o cigarro reduz risco ao longo do tempo, melhora capacidade respiratória e diminui exposição de familiares à fumaça. O benefício individual existe, mas o impacto coletivo é enorme porque o SUS paga a conta das complicações quando a prevenção falha.
O Brasil já foi referência internacional em controle do tabaco, com queda histórica de fumantes depois de restrições à propaganda, ambientes fechados livres de fumaça, alertas em embalagens e aumento de informação. A disputa agora é mais difícil. O cigarro tradicional segue presente, os dispositivos eletrônicos bagunçaram a percepção de risco e parte do público jovem entrou na nicotina por outra porta. Por isso, tratamento acessível não é luxo. É manutenção de uma política que precisa se atualizar.
O governo também afirma que a estratégia inclui ações de educação em saúde. Esse pedaço é decisivo. Medicamento sem orientação pode virar frustração. Orientação sem medicamento pode virar abandono. As duas coisas precisam andar juntas, especialmente para quem fuma há muitos anos, já tentou parar antes e sente que fracassou. Recaída não encerra tratamento. Em dependência, recaída costuma ser parte do processo, e o serviço de saúde deveria estar preparado para recomeçar sem humilhar o paciente.
O que observar agora
O próximo dado importante não é apenas quantas unidades serão distribuídas em 2026. É onde elas chegam, por quanto tempo ficam disponíveis e quantas pessoas completam o acompanhamento. Um país continental pode ter número nacional bonito e falha local feia. Estoque em uma capital não ajuda quem procura atendimento em uma cidade pequena. Remédio no depósito estadual não ajuda se a unidade básica não recebe.
Também vale acompanhar se a política conversa com a fiscalização sobre cigarros eletrônicos e com campanhas voltadas a adolescentes. A dependência de nicotina mudou de embalagem. Se a resposta pública ficar presa ao cigarro de maço, chegará atrasada a uma parte do problema.
O balanço do Ministério da Saúde, no fim, traz uma boa notícia concreta: há mais tratamento disponível do que havia três anos atrás. Mas a régua certa é exigente. O SUS não precisa apenas distribuir mais. Precisa garantir que quem decidiu parar de fumar encontre porta aberta, produto disponível e acompanhamento decente. Para uma dependência que mata devagar, isso é o mínimo que uma política pública séria tem de entregar.
