A Copa do Mundo de 2026 entra na semana de abertura com uma contradição difícil de esconder. A FIFA vende o torneio como uma celebração global espalhada por Estados Unidos, México e Canadá. Nos Estados Unidos, porém, a entidade chega cercada por desconfiança política, críticas a preços de ingressos e perguntas incômodas sobre imigração e custos públicos. A Associated Press publicou nesta segunda-feira, 8 de junho, um retrato duro desse ambiente: Gianni Infantino, presidente da FIFA, mantém acesso confortável a Donald Trump, mas enfrenta resistência em praticamente todas as outras frentes institucionais americanas.
O desconforto não vem apenas da oposição democrata. A reportagem registra críticas de autoridades locais, procuradores, governadores e parlamentares dos dois partidos. Esse é o ponto mais relevante. Em um país politicamente rachado, a FIFA conseguiu produzir um tipo raro de consenso: muita gente quer a Copa, mas pouca gente parece confortável com a forma como a entidade opera o torneio.
A abertura acontece em um calendário curto e pesado. A Copa será disputada de 11 de junho a 19 de julho, com 48 seleções, escala inédita e sede tripla. A promessa comercial é gigantesca. O risco político também. Nos EUA, o Mundial cruza três temas explosivos: custo de vida, segurança migratória e uso de megaeventos esportivos como vitrine presidencial.
O desgaste dos ingressos
O primeiro foco de atrito é o preço. Segundo a AP, prefeitos como Zohran Mamdani, de Nova York, e Karen Bass, de Los Angeles, criticaram a política de ingressos. Mamdani conseguiu depois um lote de 1.000 entradas a 50 dólares para moradores de Nova York. Procuradores de Nova York e Nova Jersey abriram investigação sobre preços no mês passado. Em Nova Jersey, a governadora Mikie Sherrill cobrou ajuda da FIFA para cobrir milhões de dólares em custos de transporte, antes de buscar receita publicitária para fechar a conta.
A ironia é que a crítica alcançou até Trump, apesar da relação próxima com Infantino. O presidente americano disse ao New York Post que não pagaria os preços de 1.000 dólares para ver a estreia dos Estados Unidos contra o Paraguai. Quando até o aliado político mais valioso da entidade reclama do preço, o problema deixa de ser ruído de torcedor e vira risco reputacional.
| Ponto de tensão | O que está em jogo |
|---|---|
| Ingressos | Críticas a valores altos e investigação em Nova York e Nova Jersey |
| Custos locais | Transporte, segurança, publicidade e pressão sobre governos-sede |
| Imigração | Fiscalização federal agressiva em meio ao fluxo internacional de torcedores |
| Política | Proximidade de Infantino com Trump e desconforto de autoridades locais |
| Imagem da FIFA | Entidade tenta vender unidade, mas enfrenta cobrança sobre acesso e transparência |
Infantino perto de Trump, longe dos outros
Infantino apostou alto na relação com a Casa Branca. A AP lembra que ele criou um prêmio de paz entregue a Trump e passou a frequentar o entorno presidencial, inclusive em visita recente na semana passada. Do ponto de vista operacional, a estratégia tem lógica: uma Copa nos Estados Unidos depende de visto, segurança, transporte, fronteira, coordenação federal e apoio político. Ignorar o governo americano seria amadorismo.
O problema é o preço simbólico dessa proximidade. Para prefeitos e governadores que precisam lidar com torcida, mobilidade urbana, protestos, custos extras e cobrança local, a imagem de uma FIFA colada ao presidente pode parecer menos cooperação institucional e mais alinhamento político. Em uma Copa que pretende ser de três países e de milhões de torcedores, isso estreita a marca do evento.
Há também o histórico da própria FIFA. O senador republicano Todd Young, ex-jogador universitário de futebol, disse à AP que a entidade parece distante de pessoas comuns e criticou seu passado de corrupção. O deputado democrata Rick Larsen afirmou que torcedores gostariam de ver Infantino menos no noticiário e mais dedicado ao jogo. São críticas de campos políticos diferentes, mas com a mesma suspeita: a FIFA fala em paixão popular enquanto administra o produto como clube de elite.
A Copa pode lotar estádios e ainda assim fracassar no teste de acesso. O problema não é só vender ingresso caro; é vender a ideia de festa global enquanto parte do público se sente tratado como figurante.
Imigração virou parte do roteiro
A tensão migratória pesa ainda mais porque o torneio será disputado sob uma política federal mais dura. A AP cita choques intensos em um centro de imigração em Nova Jersey, a cerca de 16 quilômetros do estádio onde será disputada a final. Andrew Giuliani, diretor executivo da força-tarefa da Casa Branca para a Copa, disse em Miami que quem estiver legalmente no país não tem com o que se preocupar. A frase tenta tranquilizar. Também deixa claro que imigração será parte do ambiente do Mundial.
Esse é um teste que a FIFA não controla totalmente. O futebol depende de torcedores estrangeiros, trabalhadores temporários, imprensa internacional e comunidades migrantes que já vivem nas cidades-sede. Se a fiscalização virar medo, atraso ou constrangimento, o evento perde justamente aquilo que promete entregar: circulação global, festa multicultural e arquibancada misturada.
Para o público brasileiro, a discussão importa por um motivo simples. A Seleção estreia contra Marrocos em 13 de junho, em Nova Jersey, dentro desse mesmo ecossistema de segurança, preço e deslocamento. A Copa não será só bola rolando no sábado. Será também aeroporto, visto, transporte, cambista, app de ingresso, policiamento, hotel caro e fila. O torcedor descobre isso antes do árbitro apitar.
O risco de uma Copa de vitrine
Trump transformou grandes eventos esportivos em peça de imagem do segundo mandato. A Copa abre uma sequência que inclui UFC na Casa Branca, celebrações nacionais e a Olimpíada de Los Angeles em 2028. Para a FIFA, estar perto desse centro de poder pode resolver problemas práticos. Para o torneio, pode criar outro problema: parecer menos uma Copa da população e mais uma vitrine presidencial com futebol de fundo.
A entidade ainda tem tempo para reduzir dano. Pode ampliar ingressos acessíveis, responder com transparência às investigações, dividir melhor custos com cidades-sede e comunicar regras migratórias de forma objetiva. Mas não há como fingir que a política ficou fora do estádio. Em 2026, ela já está na catraca.
O futebol costuma ter força para suspender brigas por 90 minutos. Essa é a aposta otimista. Só que a Copa de 2026 começa com uma pergunta que não cabe no placar: a maior competição do mundo ainda consegue ser popular quando chega cercada por preços altos, poder político e fronteiras vigiadas? A resposta não virá no discurso de Infantino. Virá nas arquibancadas, nos bolsos dos torcedores e na forma como as cidades aguentarem a conta.
