Tarifa zero costuma ser vendida como ônibus grátis. Essa definição é pequena demais para o tamanho do problema. Um estudo divulgado neste sábado, 13 de junho, pela Agência Brasil mostra que o preço da passagem, a demora, a superlotação e a imprevisibilidade do transporte público entram direto na saúde de quem mora longe dos serviços. A conta aparece em consulta perdida, diagnóstico atrasado, tratamento interrompido e doença crônica mal acompanhada.
A pesquisa foi desenvolvida por pesquisadores vinculados ao Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília. O artigo, em formato de policy paper, trata a mobilidade como parte da estrutura de acesso à cidade e aos serviços públicos. O ponto central é simples: se o SUS é universal no papel, mas o caminho até a unidade de saúde custa caro, demora demais ou falha sem aviso, a universalidade fica pela metade.
A reportagem da Agência Brasil ouviu usuários na Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília, e trouxe casos que explicam melhor do que qualquer discurso. Núbia Sales Veras, auxiliar de serviços gerais de 52 anos, mora na Cidade Ocidental, no entorno do Distrito Federal, e cruza cerca de 50 quilômetros para trabalhar no Lago Sul. Ela relatou perda de compromissos e consultas relacionadas ao tratamento de fibromialgia por causa da demora e do custo do ônibus. A passagem pode chegar a R$ 18 por dia.
Esse valor não é detalhe para quem vive com orçamento apertado. É uma escolha forçada entre ir ao médico, trabalhar, levar uma filha a uma escola melhor, visitar parente, buscar cultura ou simplesmente descansar. Quando a cidade cobra caro para circular, ela escolhe quem participa dela. E, na prática brasileira, quem fica mais preso costuma ser quem já mora mais longe.
O estudo muda o enquadramento da tarifa zero
O debate sobre gratuidade no transporte costuma ficar preso a duas perguntas: quem paga e quanto custa. São perguntas legítimas, mas incompletas. O estudo da UnB acrescenta outra: quanto custa, em saúde pública, impedir que a população chegue a consultas, exames e acompanhamento preventivo?
Segundo o trabalho citado pela Agência Brasil, custo tarifário e precariedade do transporte geram obstáculos à continuidade do cuidado em saúde. A lista inclui atraso de diagnósticos, faltas a consultas agendadas e prejuízo no controle de doenças crônicas. Não é uma abstração acadêmica. É o tipo de efeito que aparece quando uma pessoa precisa sair muito cedo, pegar ônibus cheio, esperar tempo demais, perder conexão e ainda escolher se paga ida e volta ou compra comida.
| Barreira | Efeito provável na saúde |
|---|---|
| Passagem cara | Consulta ou exame adiado por falta de dinheiro |
| Ônibus imprevisível | Atraso e perda de atendimento marcado |
| Deslocamento longo | Estresse, exaustão e menor adesão a tratamento |
| Superlotação | Viagem mais difícil para idosos, pessoas com dor e pacientes crônicos |
A pesquisa também aponta que deslocamentos prolongados em regiões metropolitanas agravam sofrimento psíquico, estresse crônico e exaustão, com potencial de piorar quadros de ansiedade e depressão. É aqui que a conversa deixa de ser só transporte. Quem passa horas por dia dentro de um ônibus ruim não está apenas perdendo tempo. Está gastando saúde.
A desigualdade racial está no centro da pauta
O estudo coloca a desigualdade racial no centro da discussão. A população negra está sobrerrepresentada entre grupos de menor renda, moradores de territórios periféricos e usuários dependentes do transporte público. Isso significa que a tarifa não pesa igual para todos. O mesmo preço pode ser incômodo para uma pessoa e bloqueio real para outra.
A Agência Brasil destaca que dados do DataSUS citados na pesquisa mostram que mulheres negras enfrentam o dobro do risco de morte materna em relação a mulheres brancas. O estudo conecta essa desigualdade também a restrições materiais e espaciais de locomoção impostas pela segregação urbana. Em português direto: se o serviço existe, mas fica longe, caro e difícil de alcançar, o direito vira uma promessa com pedágio.
Aposentada de 72 anos, Helena Simão, moradora de Samambaia, relatou que já não paga passagem por ter gratuidade de pessoa idosa, mas ainda perde consulta pela baixa frequência dos ônibus. Esse detalhe é importante porque desmonta uma ilusão comum. Tarifa zero resolve a barreira do preço, mas não resolve sozinha uma rede ruim. Gratuidade sem ônibus suficiente vira alívio incompleto.
Transporte público não é acessório da saúde: para milhões de pessoas, ele é a ponte entre o diagnóstico e o abandono.
O dinheiro volta para algum lugar
O argumento econômico também aparece no estudo. Em trabalho anterior, o mesmo grupo de pesquisa estimou que implementar transporte público gratuito nas 27 capitais brasileiras representaria uma injeção anual de R$ 60,3 bilhões na economia do país, com efeito comparado ao Bolsa Família. Esse número precisa ser discutido com cuidado, mas ele coloca pressão sobre a ideia simplista de que tarifa zero é apenas despesa.
Quando uma família deixa de gastar com passagem, esse dinheiro não evapora. Ele tende a ir para alimentação, remédio, comércio local, serviços e pequenas compras. Quando alguém consegue manter tratamento, o sistema pode evitar agravamentos que custam mais caro depois. Quando uma consulta não é perdida, há melhor uso da agenda pública. A economia da mobilidade não termina na catraca.
Isso não elimina o problema do financiamento. Transporte gratuito exige fonte estável de receita, governança, controle de qualidade e planejamento. Sem isso, vira promessa bonita em planilha fraca. Mas a pergunta correta não é apenas se a cidade consegue bancar a gratuidade. É se ela consegue continuar bancando exclusão, doença evitável e tempo desperdiçado em deslocamentos ruins.
Tarifa zero não pode virar desculpa para serviço pior
Há uma armadilha no debate. Algumas gestões podem tratar gratuidade como substituta de qualidade. Não é. Um ônibus gratuito que demora demais, passa lotado e não conecta periferia a hospitais, escolas e empregos continua falhando. O estudo fala de remover a barreira econômica, mas também mostra que a precariedade do serviço é parte do problema.
Por isso, a política precisa ser pensada como mobilidade universal, não como agrado eleitoral. Tarifa zero relevante exige frequência, integração, informação em tempo real, segurança, acessibilidade e desenho de linhas que respeite a vida real da população. Quem sai da periferia para atendimento especializado não precisa de discurso. Precisa de ônibus no horário, trajeto possível e custo que não coma o orçamento da semana.
O paralelo com o SUS, citado por pesquisadores na reportagem, ajuda a entender a ambição. A saúde pública brasileira se organiza em torno da ideia de acesso universal, ainda que enfrente filas, subfinanciamento e desigualdade regional. O transporte, quando tratado como direito, pode cumprir função parecida: permitir que a pessoa chegue aos serviços que o Estado diz oferecer.
O ponto que não dá para ignorar
A tarifa zero não é mágica. Não substitui hospital, médico, exame, remédio nem gestão decente. Mas pode remover uma barreira cotidiana que muita gente finge não ver porque não sente no próprio bolso. Para quem tem carro, aplicativo ou dinheiro para passagem, mobilidade parece escolha. Para quem depende de ônibus ruim e caro, mobilidade é limite.
O estudo da UnB coloca uma frase incômoda na mesa sem precisar formulá-la assim: política de saúde começa antes da porta do posto. Começa na rua, no ponto, na catraca, no tempo de espera e no dinheiro que falta para a volta. Se o Brasil quer discutir prevenção, cuidado contínuo e redução de desigualdades, vai ter que discutir também quem consegue circular.
Tratar tarifa zero como tema apenas de transporte empobrece o debate. A pergunta real é se a cidade quer que seus moradores cheguem aos serviços públicos ou apenas diga que eles existem. Entre uma coisa e outra há quilômetros, ônibus lotados, passagens caras e consultas perdidas. É nesse espaço que a política pública precisa entrar.
