Em outubro, o Brasil vai às urnas. E desta vez há um personagem novo na disputa: a inteligência artificial. Não como tema de debate — como ferramenta. De um lado, candidatos usam IA para escrever discursos e criar material de campanha. De outro, agentes mal-intencionados usam as mesmas ferramentas para manipular.
As empresas que fazem essa tecnologia — Google e OpenAI entre elas — reconhecem o tamanho do problema. Ambas afirmam que as eleições brasileiras de 2026 são o "primeiro grande teste mundial" das regras criadas para conter o uso abusivo da IA em pleitos. O que acontecer aqui vai servir de referência para o resto do mundo.
O que já aconteceu em outros países
O Brasil não parte do zero. Há casos documentados que mostram o que pode dar errado:
- Índia: líderes mortos foram recriados digitalmente para "abençoar", do além, candidatos vivos durante a campanha
- Estados Unidos: a voz do então presidente Joe Biden foi clonada em ligações automáticas desencorajando eleitores a votar nas primárias
- Eslováquia (2023): um áudio falso colocou um líder de oposição em uma conversa comprometedora dias antes da eleição
- Reino Unido: áudio deepfake atribuiu falas ofensivas ao líder trabalhista Keir Starmer
- Indonésia: o passado militar problemático de um candidato foi "lavado" digitalmente em uma imagem simpática e amigável
O padrão é claro: a IA não cria mentiras novas, mas dá a elas uma aparência de verdade que antes era impossível. Um áudio falso há cinco anos soava artificial. Hoje, soa como a pessoa real.
O que o TSE proíbe — e onde estão as brechas
Em março de 2026, o Tribunal Superior Eleitoral aprovou regras inéditas para o uso de IA nas eleições. As principais determinações:
- Plataformas digitais ficam proibidas de ranquear, recomendar ou sugerir candidatos aos usuários
- Todo conteúdo sintético (gerado por IA) precisa ter marca d'água digital identificando sua origem
- Deepfakes que distorcem a realidade de candidatos são proibidos
O problema, segundo especialistas, está no que a regra não cobre. Três brechas se destacam:
1. O "dividendo do mentiroso". Esse é o efeito mais perverso. Com deepfakes circulando, um político flagrado em um vídeo real e comprometedor pode simplesmente alegar que é falso, gerado por IA. A existência da tecnologia de falsificação corrói a credibilidade até das provas verdadeiras. A regra do TSE não endereça isso adequadamente.
2. Microtargeting. O envio de mensagens personalizadas para grupos específicos de eleitores — baseado em dados pessoais, geralmente via WhatsApp — escapa de proibição clara. Como explicou Maria Eduarda Cintra, do Google, há uma assimetria perigosa: plataformas geram "mensagens personalizadas em segundos" enquanto o eleitor é "incapaz de identificar" que está sendo alvo de microtargeting que acontece "imperceptivelmente".
3. Conteúdo fora do período eleitoral. A regulação foca no período de campanha. Mas desinformação criada antes — quando as regras eleitorais ainda não valem — pode plantar narrativas que florescem durante a eleição sem violar nenhuma norma.
O que as empresas de IA dizem
As gigantes de tecnologia adotam um discurso cauteloso. Bruno Lewicki, da OpenAI, afirmou que a empresa proíbe "interferência eleitoral" e "falsificação de origem" — mas admitiu que a implementação é "difícil" e "não é perfeita". A OpenAI prometeu lançar, em até duas semanas, uma ferramenta pública que permite verificar se uma imagem foi gerada por IA.
O Google aposta na sua tecnologia SynthID, que insere marcas d'água em áudio, vídeo, imagem e texto sintéticos. Mas o representante da empresa foi honesto sobre os limites: nenhuma regulação sozinha resolve o problema sem que o eleitor desenvolva letramento digital. "Temos uma missão enorme", disse.
A OpenAI também firmou parceria com a Associated Press e acordo com o grupo Folha de S.Paulo para oferecer informação confiável sobre votação e resultados em português — uma tentativa de criar uma fonte verificada no meio do ruído.
Como o eleitor pode se proteger
A defesa contra a manipulação por IA combina tecnologia e atenção. Algumas práticas:
- Desconfie de áudios e vídeos que chegam por WhatsApp sem fonte verificável — especialmente os que provocam emoção forte (raiva, medo, indignação)
- Procure a marca d'água: conteúdo legítimo de campanha gerado por IA deve ter identificação. A ausência dela em material que parece oficial é sinal de alerta
- Verifique em fontes independentes: antes de compartilhar, cheque se veículos de imprensa confiáveis noticiaram o mesmo fato
- Cuidado com o timing: deepfakes costumam ser lançados às vésperas da votação, quando não há tempo para desmentir
A eleição de 2026 vai testar não só os candidatos, mas a capacidade da sociedade brasileira de distinguir o real do sintético. O TSE deu o primeiro passo regulatório. As empresas prometeram ferramentas. Mas no fim, a última linha de defesa é o eleitor que para, pensa e verifica antes de acreditar — e antes de compartilhar.
Cinco meses até outubro. Tempo suficiente para a tecnologia de manipulação melhorar — e para o eleitor brasileiro aprender a se defender. Qual dos dois vai mais rápido é a pergunta que define a integridade do pleito.
Leia também: SpaceX define ação a US$ 135 e vai ao mercado com valuation de US$ 1,77 trilhão. A nova estratégia contra o crime: por que o Brasil agora mira o dinheiro das facções.
